sexta-feira, 14 de agosto de 2009

AS CRISES DA VIDA



                    AS CRISES DA VIDA
                             Theodiano Bastos

                    Viver é uma arte, arte no sentido de saber superar as angústias e as crises da existência humana, mas nenhuma crise mereceu tanta preocupação quanto a crise da meia-idade. O médico Carl Gustav Jung sempre se preocupou muito com essa fase da vida. Um homem ou uma mulher, desde o nascimento até 30 ou 40 anos, está, por assim dizer, numa viagem de exploração; está descobrindo o mundo. Tudo é possível. Mas chega um ponto, na meia-idade, em que ele atinge o horizonte, como o sol ao meio-dia, e vê o outro lado: o resto de sua vida e, ao longe, a morte. Todos nós sabemos que um dia vamos morrer, até as crianças sabem, mas não levam a sério, daí as imprudências próprias dos jovens no uso dos automóveis, motos, esportes radicais e perigosos e, principalmente, como encaram a guerra. Pensam que podem tudo. Mas na meia-idade a consciência de que a vida declina é diferente.
                    Há os "modernos", os materialistas, os que não têm fé, nem religião ou filosofia para enfrentar as vicissitudes da vida. Eles esquecem tudo o que lhes ensinaram quando eram crianças, querem é "curtir a vida", pois entendem que a vida é um eterno desfrute: comer, beber, fazer sexo, "ser feliz". A vida é tudo que eles têm. É justamente esse tipo de gente que mais preocupava o Dr. Jung.
                    Todos nós sonhamos em realizar grandes coisas na vida e quem sonhou em ser general subitamente percebe que nunca será nada além de comandante de uma companhia, enquanto outros mais jovens estão em posição acima da sua, lembra Jung. A mulher desdenha dele por isso, ele por sua vez não a vê mais tão atraente, seus filhos pegam seu dinheiro e vão viver suas próprias vidas. A inquietude lhe bate à porta... "Não é de admirar que muitas neuroses graves se manifestem no início do outono da vida", adverte Jung. É uma espécie de segunda puberdade ou segundo período de impetuosidade, não raro acompanhado de todos os tumultos da paixão, a "idade perigosa", em que se sai como um louco em busca do tempo perdido.
                    O "entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã", lembra Jung. Procurar livrar-se da tentação de abandonar as próprias convicções e querer viver no pólo oposto ao seu interior, mudanças de profissão, divórcios, conversões religiosas, apostasias de toda espécie, são sintomas desse mergulho no contrário e, quando se descartam os valores incontestáveis e universalmente reconhecidos  o prejuízo é fatal, adverte Jung: "Quem age desta forma perde-se juntamente com seus valores".
                    A vida também é o amanhã; só compreendemos o hoje se puder acrescentá-lo àquilo que foi ontem e ao começo daquilo que será amanhã; é a cadeia da vida. O que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da vida tem de encontrar dentro de si mesmo, continua ensinando o Jung. Fica-se diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida (entendendo-se por vida algo mais do que simples resignação e saudosismo).
                    A neurose, é sempre bom repetir, é um estado de desunião consigo mesmo e com o próximo. Entre os motivos que levam a essa desunião, na maioria das pessoas, consiste o fato de que a consciência deseja manter seu ideal moral, enquanto o inconsciente luta por um ideal imoral e pouco ético. Indivíduos deste tipo pretendem ser mais decentes do que realmente são, o que gera medo e ansiedade de reprovação, de ser desmascarado. Muitos têm sonhos em que aparece sempre alguém olhando. É o superego de que fala Freud, que vê tudo, mandando recado para o sonhador: "estou de olho em você, seu dissimulado". O neurótico não consegue distinguir claramente amigos de inimigos, alerta Karen Horney; apesar de desejar ajuda do analista e pretender chegar a uma compreensão de si próprio. Ao mesmo tempo, tem de combater o analista como um intruso perigosíssimo, pois pode desvendar seu lado sombrio, por isso procura desorientar o analista. É como se estivesse perante, com medo de ser visto como um criminoso. É um sentimento ambivalente: tem amizade e ao mesmo tempo ódio do analista por intrometer-se nos seus pensamentos e sentimentos ocultos. Medo e ansiedade de ser desmascarado e rejeitado. Alguns conseguem, sem ajuda psicoterápica perder sintomas neuróticos, principalmente  se sobrevivem a  alguma situação adversa de gravidade, como um acidente, perda de bens etc.
                        Mas há momentos da vida em que só se consegue superá-los se recebe a Graça da Fé. Ter fé em Deus. O Dr. Jung sempre alertou que os homens sempre precisaram dos demônios e nunca puderam prescindir dos deuses. "Por isso, acho mais sábio reconhecer conscientemente a idéia de Deus; caso contrário, outra coisa fica em seu lugar, em geral  uma coisa sem importância ou uma asneira qualquer". Quem quiser transferir-se são e salvo para a segunda metade da vida tem de saber disso, finaliza Jung. Enfim, "A vida é combate/ que aos fracos abate,/ e que aos bravos e fortes só faz exaltar./ Viver é lutar...", completa Gonçalves Dias.


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