Por ÉLIO GASPARI
Por ÉLIO GASPARI
Para se ter uma ideia do ritual monárquico que
enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários
denominados “capinhas” que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para
que eles sentem ou levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é
necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)
Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise
— Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e André Mendonça — vê-se que
Toffoli e Moraes entraram no processo do banco Master preocupados em apagar as
luzes da sala. Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do
resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob
sigilo e blindou-o. Deu no que deu.
Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do
Master pelo escritório de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe
pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.
Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus
desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do
tribunal. Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque julgaram-se
invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.
Cármen Lúcia cantou a pedra
Se os ministros do Supremo tivessem juízo, eles
teriam ouvido a ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 12 de fevereiro, quando
ela disse:
“Todo taxista que eu pego fala mal do
Supremo. A população está contra o Supremo”.
Não eram só os taxistas. Diante de revelações da
Polícia Federal em torno da venda de parte do Tayayá, o STF deu-se ao ridículo.
Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu
que deixasse a relatoria, o que ele fez. Em uma fala que deverá entrar para a
história do Supremo, Dino disse do documento da ligação da Polícia Federal dos
familiares de Toffoli com o resort Tayayá:
“Essas 200 páginas (de relatório da PF), para mim,
são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico.”
As
camas do Master
Foram expostas à exaustão as festas e farofas de
Daniel Vorcaro. No meio desses agapes, degustavam-se uísques e charutos. Só?
Mensagens já
conhecidas apontam para a existência de uma traficância de favores sexuais
semelhante, em ponto menor ao do americano Jeffrey Epstein. Vorcaro era servido
pelo promotor de eventos Diogo Batista, conhecido como “o conciérge dos VIPs”.
Em 2022, num passeio pela França, o banqueiro gastou
R$ 11,2 milhões. Meses depois, o banqueiro patrocinou uma festa indígena na
praia de Trancoso, enfeitada por convidadas estrangeiras, inclusive russas e
ucranianas. No ano seguinte o Master foi um dos patrocinadores da equipe de
Fórmula 1 da Aston Martin e da sua festa para 190 convidados e consumo de 180
garrafas de bebidas. Novamente, foram trazidas convidadas do Leste Europeu.
Em 2024, Vorcaro desentendeu-se com Diogo Batista e
foi parcialmente substituído por Karolina Trainotti.
Vorcaro também foi assessorado por Stheve Lopes,
sócio de Batista. As repórteres Joana Cunha e Julia Mouras mostraram que ele
recrutava convidadas e submetia fotografias a Vorcaro que as avaliava nas
categorias “wow”, “loirinha top” ou “+ -”.
Em junho de 2004, Lopes ajudou Vorcaro com eventos
simultâneos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como
Gilmarpalooza. O roteiro que Vorcaro bancou em Portugal ficou em US$ 1,6
milhão.
Em agosto de 2025 Vorcaro e sua ex-noiva, Martha
Graeff, trataram das festas, e ela reclamou que Vorcaro mantinha contato na
rede social com mulheres que ela considerava “putas”.
“Fazia parte do meu ‘business’. Nunca te escondi o
que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo”, respondeu o ex-banqueiro
nas mensagens extraídas de seu celular pela PF.
Falta saber qual era o “business” dos convidados de
Vorcaro.